domingo, 24 de maio de 2026

Na Guerra


É triste pensar em algo

Como a tal guerra cruel

Que, ou seja, pobre ou fidalgo

A ela tem que ser fiel


Oh, que mundo mal

Exclamou todos ante a guerra

E quer seja homem ou animal

Sofre por sua causa na terra


E foi pela maldade do homem

Que uma vez ao raiar do dia

“Comandantes e seus soldados tomem”

Soldados todos em vigia.


Era a voz do general

Que dizia com bravura

Todos fora do arraial

Eis uma grande aventura.


Falava ele aos soldados

Que sem pena deviam guerrear

E não ouvissem os brados

Mas ao inimigo matar.


Depois de ele ter falado

E as instruções todas dar

Um silêncio, todos calados

O plano agora era atacar.


Não durou muito e então

Todos à batalha seguiram

Para entregar o coração

E a própria vida como o instruíram.


No campo da batalha porém

Todos lutavam com vigor

Não perdoando a ninguém

E esquecendo que existia o amor


Um soldado no entanto

Que já há cinco dias guerreava

Foi tomado de espanto

Por algo que se passava


Mas no seu dever de soldado

E como a guerra pedia

Tinha o aparente malvado

Que ultrapassava aquela guerra fria


Era um pobre soldado caído

Que chorava de tristeza

Pois tinha o coração moído

Porque na sua vida tinha uma riqueza


Um grito foi ouvido

Em meio a fúria do lugar

Aquele soldado ferido

Pedia para o perdoar


Contou brevemente a sua história

Ao inimigo que com uma arma apontava

E como não tirava da memória

A filhinha que tanto amava


Com isso tirou do bolso

Uma fotografia que possuía

Entregou-a ao soldado moço

Que as lágrimas já envolvia


E triste com tudo o que ouviu

Jogou a arma no chão

E não tardou, ele sentiu

Comovido o seu coração


Como que não bastasse

Viu que seu inimigo

Mesmo que ainda respirasse

Padecia como mendigo


Era o brado derradeiro

Daquele pobre sofredor

Palavras que no mundo inteiro

Soaram com muito vigor


Dizia ele: Oh, soldado, foste infiel

Aos homens que nada são

Mas não ao Deus lá do céu

Que vê o teu coração


Infiel por não ter me matado

Apesar de ser teu inimigo

Mas outro já havia passado

E no peito me ferido


Quanto a minha filha, continuou

Eu a amo, mas vejo agora

Que tudo mesmo terminou

Pois sinto que chegou a minha hora


E dito isto, deu o último suspiro

Adormeceu para sempre ali

O soldado que não dera um tiro

Mas que viera só pra servir


O soldado expectante

Ao terminar a trágica cena

Viu quanto é importante

Mesmo na guerra ter pena


Tudo acabou, felizmente

Mas no coração do soldado

Restava lembrança fervente

Daquele que de inimigo, amigo foi amado.


Raimundo Camilo Martins Neto

09/09/82

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