É triste pensar em algo
Como a tal guerra cruel
Que, ou seja, pobre ou fidalgo
A ela tem que ser fiel
Oh, que mundo mal
Exclamou todos ante a guerra
E quer seja homem ou animal
Sofre por sua causa na terra
E foi pela maldade do homem
Que uma vez ao raiar do dia
“Comandantes e seus soldados tomem”
Soldados todos em vigia.
Era a voz do general
Que dizia com bravura
Todos fora do arraial
Eis uma grande aventura.
Falava ele aos soldados
Que sem pena deviam guerrear
E não ouvissem os brados
Mas ao inimigo matar.
Depois de ele ter falado
E as instruções todas dar
Um silêncio, todos calados
O plano agora era atacar.
Não durou muito e então
Todos à batalha seguiram
Para entregar o coração
E a própria vida como o instruíram.
No campo da batalha porém
Todos lutavam com vigor
Não perdoando a ninguém
E esquecendo que existia o amor
Um soldado no entanto
Que já há cinco dias guerreava
Foi tomado de espanto
Por algo que se passava
Mas no seu dever de soldado
E como a guerra pedia
Tinha o aparente malvado
Que ultrapassava aquela guerra fria
Era um pobre soldado caído
Que chorava de tristeza
Pois tinha o coração moído
Porque na sua vida tinha uma riqueza
Um grito foi ouvido
Em meio a fúria do lugar
Aquele soldado ferido
Pedia para o perdoar
Contou brevemente a sua história
Ao inimigo que com uma arma apontava
E como não tirava da memória
A filhinha que tanto amava
Com isso tirou do bolso
Uma fotografia que possuía
Entregou-a ao soldado moço
Que as lágrimas já envolvia
E triste com tudo o que ouviu
Jogou a arma no chão
E não tardou, ele sentiu
Comovido o seu coração
Como que não bastasse
Viu que seu inimigo
Mesmo que ainda respirasse
Padecia como mendigo
Era o brado derradeiro
Daquele pobre sofredor
Palavras que no mundo inteiro
Soaram com muito vigor
Dizia ele: Oh, soldado, foste infiel
Aos homens que nada são
Mas não ao Deus lá do céu
Que vê o teu coração
Infiel por não ter me matado
Apesar de ser teu inimigo
Mas outro já havia passado
E no peito me ferido
Quanto a minha filha, continuou
Eu a amo, mas vejo agora
Que tudo mesmo terminou
Pois sinto que chegou a minha hora
E dito isto, deu o último suspiro
Adormeceu para sempre ali
O soldado que não dera um tiro
Mas que viera só pra servir
O soldado expectante
Ao terminar a trágica cena
Viu quanto é importante
Mesmo na guerra ter pena
Tudo acabou, felizmente
Mas no coração do soldado
Restava lembrança fervente
Daquele que de inimigo, amigo foi amado.
Raimundo Camilo Martins Neto
09/09/82
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